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LUÍS CAMPOS AVISA QUE DEVE HAVER INCENTIVOS QUE RECONHEÇAM “O PAPEL NUCLEAR DA MEDICINA INTERNA”

O especialista Luís Campos avisou que deve haver incentivos que reconheçam “o papel nuclear da Medicina Interna” nos hospitais. “Somos poucos [internistas], temos má qualidade de vida e cada vez vamos ser mais necessários em função da evolução epidemiológica dos doentes que vamos ter nos hospitais. Portanto, é fundamental proteger esta especialidade”, defendeu presidente da Comissão de Qualidade e Assuntos Profissionais da Federação Europeia de Medicina Interna. “Tem que haver incentivos que reconheçam este papel fundamental, nuclear, da Medicina Interna nos hospitais, se não os estudantes licenciados cada vez mais vão abandonar esta especialidade e se isso continuar a acontecer será a derrocada da qualidade dos cuidados que nós prestamos, particularmente a nível do Serviço Nacional de Saúde”, alertou Luís Campos.

(Lusa/ in Diário Farmacêutico de 26/01/23)

Opinião: Notícias

SERVIÇOS NACIONAIS DE SAÚDE

E SE PARÁSSEMOS PARA PENSAR? E QUEM SABE VOLTAR ATRÁS?

O Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS) anuncia-se naquele país a caminho do fracasso. Ele que serviu de exemplo ao nosso e que, tal como o português, durante anos funcionou muito bem. No caso dele, literalmente de modo exemplar.

O que aconteceu? Basicamente foram-lhe sendo introduzidas alterações que se mostraram negativas, depois desastrosas, a médio e longo prazo. E chegámos a este momento. E aos que se lhe seguirão, na senda do caminho percorrido até agora, se não for modificado.

Para nós o mais preocupante é que, para além de ser um serviço de que o nosso basicamente foi decalcado, as alterações que levaram à sua degradação também foram copiadas para o nosso SNS. Mais tarde, de modo que os mesmos efeitos se seguirão às mesmas causas no seu tempo próprio... É claro que o facto de o nosso serviço nacional de saúde ser uma espécie de cópia tardia do britânico, poderia dar-nos a possibilidade de ir atempadamente corrigindo o que naquele se mostrou mal feito. Mas, para isso, seria necessário que quem levou aos maus resultados, e quem os acompanhou, e eventualmente os agravou, os reconhecesse como tal, os assumisse, os anunciasse à sociedade. Para que se alterassem de imediato as causas, de modo a evitar e a reverter os efeitos indesejáveis. Ora, surpreendentemente, não é isso que tem acontecido! Lá como cá. Mesmo que, e relutantemente, os responsáveis pela Saúde vão reconhecendo que o que funcionava bem em tempos agora não funciona (porque há termo de comparação!), as razões apontadas para tal procura-se, sistematicamente, que se mantenham externas ao que se fez nas mais variadas áreas (incluindo na organização médica), ao que nelas se mudou, ao que se alterou, e que obviamente levou ao que se tem agora. Nada de aceitar que foram erros, nada de entender que nem tudo o que se pensou ser para melhor assim resultou! Teimosamente invoca-se apenas que as condições mudaram… Quando muito dessa mudança, que é óbvia, foi condicionada também, e nalguns aspectos até sobretudo, pelo que foi feito mudar na estrutura que suporta os serviços de saúde, nomeadamente na gestão hospitalar, clínica e administrativa, na rede nacional de instituições públicas de saúde e nas carreiras profissionais, acima de tudo nas carreiras médicas.

E essa incapacidade de reconhecer os erros (muitas vezes próprios, por parte dos dirigentes e profissionais na área da Saúde) é acompanhada por outra, ainda mais preocupante: a de vislumbrar uma solução. Na realidade, as duas juntas consubstanciam a situação: está-se dentro dum túnel, não se sabe como para lá se entrou nem, portanto, como se poderá de lá sair…

A situação no Reino Unido é complicada, e a portuguesa acompanha-a paralelamente. Não será altura de pararmos para pensar? Diz o povo que, quando se está dentro dum buraco que escavámos e de que não se sabe já para que lado é a saída, a primeira coisa a fazer é parar de cavar. Que tal se, em vez de continuarmos pelo caminho que, em muitos aspectos do que se anunciava “moderno”, e “diferente”, como “lá fora” (Reino Unido?...), se revelou errado, procurarmos perceber, sem complexos, o que correu mal? E, quem sabe, recuar nalgumas áreas? Para posições confortáveis e seguras (e que se sabe que o são, porque já lá estivemos antes…), donde se possa então progredir doutro modo para um futuro melhor do que o presente que temos agora.

As guerras têm-nos demonstrado uma coisa às vezes esquecida na ânsia cega de avançar: recuar nem sempre é sinal de derrota ou de fraqueza, pode ser, pelo contrário, o começo dum avanço vitorioso. E quer parecer que para a saúde dos Serviços Nacionais de Saúde britânico e português é o que se precisa, quando o que se tinha antes era melhor que o que se tem agora. Esperemos que quem de direito acabe por perceber isso, e parem de cavar e de nos meter cada vez mais no buraco, cada vez mais longe da saída. A não ser que o objectivo de quem de direito seja mesmo esse… Mas vamos acreditar que não.

Carlos M. Costa Almeida, Prof. Doutor

Faculdade de Medicina de Coimbra
Centro Cirúrgico de Coimbra

Ex-Director de Serviço de Cirurgia do Hospital Geral-CHUC 

Opinião: Notícias
Opinião: Notícias

VITOR ALMEIDA: “PERDEMOS UMA OPORTUNIDADE DE OURO DE MARCAR A HISTÓRIA DA MEDICINA EM PORTUGAL”

“Chumbo” da especialidade de urgência é oportunidade perdida, alerta médico.
O chumbo da especialidade de Medicina de Urgência não era o desfecho esperado para uma proposta há mais de duas décadas desejada. A votação, que segundo o presidente do Colégio da Competência em Emergência Médica “foi um choque”, “não representa a maioria dos profissionais informados, os diretores de serviços de urgência e muito menos os legítimos interesses de dez milhões de portugueses”. Sobre o futuro que espera ao SNS, Vitor Almeida alerta: “os diretores de serviço vão ter de continuar a contratar tarefeiros em número crescente sem (…) oferecer uma carreira que tanto defendemos para o nosso SNS”.
Vitor Almeida: “Perdemos uma oportunidade de ouro de marcar a história da Medicina em Portugal”
HealthNews (HN)- Há mais de vinte anos que se discute a criação da especialidade de Medicina de Urgência. Em que medida esta nova especialidade iria contribuir para a melhoria do funcionamento do sistema de saúde?
Vitor Almeida (VA)- Em primeiro lugar, garantíamos uma melhoria qualitativa dos cuidados médicos de urgência. Esta questão está cientificamente comprovada e a própria Organização Mundial da Saúde recomenda que todos os países implementem esta especialidade, de forma a garantir um serviço de urgência e emergência com qualidade a todos os cidadãos.
Em segundo lugar, poderíamos alocar especialistas desta área em toda a rede de urgência do Serviço Nacional de Saúde e reforçar as estruturas existentes. É importante sublinhar que, neste momento, parte relevante da força laboral dos Serviços de Urgência Básica, Urgência Médico-Cirúrgica, Polivalente e de Medicina de Emergência Pré-Hospitalar / Transferências, é assegurada por médicos sem qualquer especialização.
Em terceiro lugar, esta especialidade iria trazer mais-valias a nível organizacional. Os hospitais poderiam recrutar, para as suas equipas de urgência, profissionais com uma carreira dedicada a esta área. Atualmente, estas equipas são formadas por médicos de diferentes especialidades, sem qualquer vínculo a um “Serviço” de Urgência (SU) propriamente dito, o que impede a criação de estruturas verdadeiramente “dedicadas”.
HN- Mas a implementação desta especialidade só iria dar frutos passado alguns anos…
VA- A Especialidade de Medicina de Urgência não iria só dar frutos daqui a cerca de seis anos após a formação dos primeiros Internos, mas muito antes. Para garantir uma transição e a possibilidade de reorganizar os SU com maior celeridade e criar um “pool” de formadores, foi proposta uma admissão por consenso muito abrangente e alargada, que permite atribuir o título de especialista de Medicina de Urgência a todos os especialistas com mais de dois anos de experiência, que exercem atividade clínica nesta área, e que cumprem uma série de critérios do ponto de vista formativo. Mas voltando às vantagens já mencionadas: este modelo de equipas fixas com especialistas dedicados iria permitir investigação com qualidade. Esta possibilidade não existe atualmente nos serviços de urgência como desejamos. É extremamente difícil poder organizar qualquer tipo de investigação que é crucial para garantir dados fiáveis e percebermos o que estamos a praticar neste momento. O controlo de qualidade seria evidentemente facilitado.
HN- Olhando para a pressão nos serviços de urgência hospitalar a nível nacional, faria então todo o sentido termos médicos especialistas nesta área?
VA- É importante reforçar o que o nosso colégio sempre afirmou que esta especialidade não é uma solução para todos os problemas do sistema, mas é inegável que constitui uma peça fundamental, incontornável e a única que está exclusivamente na mão dos médicos. Todas as outras dependem do poder político. Curiosamente, e após a votação negativa que foi recebida com estupefação por muitos colegas, alguns detratores desta causa já admitem que “ainda não é o timing“, dando a entender que até concordam com o conceito da especialização. Não podemos ignorar o facto de que muitos dos opositores desta especialidade ou não exercem na medicina de urgência / emergência, ou são em grande parte colegas que vivem ou viveram a realidade dos grandes hospitais de fim de linha. É importante perceber que em Portugal existem hospitais de média e pequena dimensão, Serviços de Urgência Básica, e uma Emergência Pré-Hospitalar fragilizados e dependentes de médicos sem formação supervisionada pela Ordem. Só a especialização garante essa segurança, e é sobretudo nesses hospitais e nessas áreas de atuação, onde estes especialistas seriam uma mais-valia, salvando vidas e garantindo ganhos em saúde para nós todos.
HN- Apesar ser já ser uma realidade na maioria dos países europeus, em Portugal esta especialidade ainda divide opiniões. Estaremos a insistir num erro?
VA- A vasta maioria dos países europeus já implementou esta especialidade, só Portugal, Chipre e Áustria é que não, sendo que a vizinha Espanha já a implementou no setor militar, prevendo-se o alargamento em 2023 para a generalidade do sistema. Se a tivéssemos implementado há dez anos, o nosso Serviço Nacional de Saúde já teria equipas reforçadas com estes especialistas bem formados e preparados para responder às verdadeiras necessidades dos doentes.
Nesta época festiva vai acontecer seguramente o mesmo que aconteceu no verão. Se estamos dependentes de médicos tarefeiros e de profissionais que não fazem parte do quadro daquela equipa de urgência, as escalas vão voltar a ficar desfalcadas. E os resultados estão à vista.
HN- Manuel Pizarro já admitiu a possibilidade de existirem constrangimentos em algumas urgências hospitalares no Natal e fim de ano.
VA- Esses constrangimentos vão surgir por duas razões. Em primeiro lugar, o SNS não está a conseguir segurar os profissionais que especializa. Apesar de as questões salariais não serem da competência da Ordem dos Médicos, é evidente que é um aspeto que explica a falta de médicos. Curiosamente acabamos por gastar avultadíssimos valores em horas extraordinárias e em médicos tarefeiros, com pagamentos muito díspares e iniquidade. Isto cria um sentimento de injustiça dentro da classe médica, que é compreensível, e que não facilita uma reflexão objetiva sobre este tema.
HN- A Assembleia de Representantes da Ordem dos Médicos chumbou a criação da especialidade de Medicina de Urgência. Qual a leitura que faz da rejeição manifestada pela instituição?
VA- Vivemos num sistema democrático, por isso só nos resta aceitar este veredito. Temos de respeitar esse voto mas que no nosso entender não representa a maioria dos médicos informados sobre esta temática. Quem apelou ao voto contra? O Colégio de Medicina Interna, da Pediatria e o da Medicina Geral e Familiar. É preciso perceber que dentro da Medicina Interna as opiniões se dividem. Uma parte importante dos colegas mais novos é a favor da especialidade. O mesmo se aplica à Pediatria. Observamos, por um lado, a posição pública do senhor presidente do Colégio de Pediatria, o Dr. Jorge Amil, colega honrado que respeito, e que se manifesta sempre contra esta especialidade, e, por outro lado, a posição da Sociedade Portuguesa de Pediatria de Urgência e Emergência que é a claramente a favor.
Relativamente à Medicina Geral e Familiar tenho ouvido comentários de colegas manifestando total “estupefação” face à posição do Colégio, nomeadamente depois da clara contestação nos órgãos próprios por parte de colegas que discordam da posição do Sr. Presidente. Não percebemos como é que a MGF se junta à posição contra uma especialidade que é fundamental para o atendimento dos doentes, com rigor e qualidade, no mundo civilizado. O que é que vai acontecer agora? Assistirmos a doentes referenciados dos hospitais para os Centros de Saúde que nem conseguem dar resposta aos seus próprios utentes e ainda são obrigados a atender doentes agudos para aliviar os Hospitais? E quem triou esses doentes no SU e decide quem fica no SU? Médicos indiferenciados? Um sistema de triagem automatizado? Como se explica que responsáveis da MGF (que sempre lutou para que um médico de família fosse especialista com um internato de quatro anos), defendam que “urgêncistas” não precisem também de ser especializados com um internato de cinco anos como o curriculum europeu exige? Onde está a coerência técnico-científica? Não se compreende como é que alguém com responsabilidades no sistema possa rejeitar um modelo que garante mais organização e qualidade. Temo que esta postura de bloqueio para soluções concreta contribua indiretamente a médio e longo prazo também para que se sobrecarreguem ainda mais os cuidados de saúde primários com os problemas de urgência.
Quem apelou ao voto contra vai ter de encontrar soluções concretas, viáveis e alternativas qualitativas, nomeadamente para garantir segurança na verdadeira urgência e emergência aos portugueses de forma sustentável, desde o momento da ocorrência até ao internamento no serviço de destino. Já nem falo da crucial importância destes especialistas para a Medicina de Catástrofe. Somos um país de fraca memória.
Todos concordamos que foi com os Internatos Médicos de Especialidades que demos o grande salto qualitativo na medicina em Portugal. Que se aplique o mesmo princípio nesta área vital. Sobretudo o Colégio de Pediatria, ao apelar ao voto contra, vai ter de encontrar uma justificação plausível para os portugueses, que vá muito além dos artigos publicados por parte do seu Presidente, para rejeitar um plano formativo, com qual até acabou por colaborar, e que inclui a abordagem especializada desde o recém-nascido à criança crítica vítima de doença ou acidente, com o foco de atuação no Pré-Hospitalar e Unidades de SU sem pediatras.
HN- Se é uma especialidade defendida por antigos e atuais diretores de serviços de urgência não seria de esperar que a Ordem dos Médicos desse ouvidos a estes apelos e fizesse parte da solução?
VA- É preciso registar que nesta votação só um terço do número total de elementos da Assembleia de Representantes votou contra. A presença de só metade da totalidade dos colegas da AR e a forte motivação do voto contra, bem patente com o apelo para a rejeição dos colégios supracitados, explica os resultados. Em democracia temos de saber respeitar resultados mas será também a democracia e a ciência a encontrarem o caminho certo que defenda os interesses dos nossos doentes, de uma forma ou outra.
Relativamente aos manifestos de apoio que registamos, efetivamente um foi o dos antigos e atuais diretores de serviços de urgência. Ninguém melhor do que estes médicos e colegas conhecem os problemas das urgências. Houve também apoios fortíssimos de várias sociedades científicas nacionais e internacionais. Chegaram cartas de apoio à Ordem, da Sociedade Europeia e de mais de 20 Sociedades nacionais Europeias, da Federação Mundial de Medicina de Urgência/Emergência, do American College, etc. Todos esperançados em ver Portugal integrado nesta vastíssima comunidade científica. Para os nossos colegas e parceiros europeus o resultado da votação foi um choque. Temos ouvido argumentos contra a Especialidade que não fazem qualquer sentido e que roçam o absurdo. Frases como: “se pagarem a todos os médicos 70 euros à hora extra, os problemas nas urgências em Portugal ficam resolvidos” são absolutamente inaceitáveis e revelam um atroz desconhecimento da verdadeira problemática no terreno. Outro argumento ouvido foi que se “considerasse um risco criar-se uma especialidade onde os médicos não têm retorno das situações clínicas que observam e não seguem doentes no internamento”. Eu como anestesista não interno doentes, nem sigo durante meses o doente atropelado que reanimo na estrada quando exerço numa VMER, da mesma forma que o médico de família pode estar a atender doentes agudos (que não são do seu ficheiro) e não os segue durante toda a vida. Portanto, este tipo de argumento para desvalorizar a Especialidade, é simplesmente ilógico.
Um outro argumento apontado é que têm de ser primeiro resolvidos todos os problemas do SNS para depois avançar com a especialidade. A questão é que estes processos têm de decorrer em paralelo. Problemas multifatoriais exigem soluções versáteis e que sigam o estado da arte médica mundial.
HN- Esta questão da criação da especialidade ganha ainda maior relevância ao tratar-se de uma das poucas medidas que está exclusivamente nas mãos dos médicos…
VA- Exatamente. Todas as outras soluções dependem do poder político, do Ministério das Finanças e da organização do SNS. A formação médica e a qualidade dos serviços prestados aos doentes estão nas mãos dos médicos e neste caso houve um compromisso forte também do governo e iniciativas favoráveis por parte da oposição. Existe um consenso claro e forte nos que querem ser parte da solução. O nosso próprio Bastonário reconheceu que a Especialidade irá trazer benefícios para os doentes, tendo também ele sempre manifestado como nós, e de forma muito ponderada, que não é a solução para todos os problemas dos SU. Portanto, perdemos uma oportunidade de ouro de marcar a história da Medicina em Portugal neste dia doze de dezembro. O que estava neste momento nas mãos da Ordem dos Médicos vai passar tal como aconteceu com a Medicina Intensiva, para a esfera política. Tivemos a oportunidade de marcar posição e de manter o controlo de todo este processo. Enquanto presidente do Colégio proponente e respeitador da importância da Ordem, não é algo que veja com agrado. Gostava de ter visto este tema encerrado no seio da Ordem dos Médicos. Até porque não era uma proposta definitiva e compete ao colégio instalador otimizar o processo. Se existiam dúvidas bastaria terem proposto adiar a votação e permitir que se esclarecessem melhor os próprios médicos envolvidos e depois tomava-se uma decisão. Infelizmente foi votado negativamente e estou convicto que esta rejeição não representa a maioria dos profissionais informados, os diretores de serviços de urgência, e muito menos os legítimos interesses de dez milhões de portugueses.
HN- Que consequências poderão surgir com uma não implementação da Especialidade?
VA- Não é uma decisão que traga benefícios para a população portuguesa. Vamos continuar a ter dificuldades em criar equipas fixas especializadas e na gestão dos recursos humanos. Portanto, estes problemas que temos, irão agravar-se sem qualquer dúvida. Está em causa o pressuposto da equidade no acesso a cuidados de urgência e emergência, se não se reverter esta tendência.
HN- Qual o futuro que prevê para os serviços de urgência do SNS nos próximos tempos?
VA- Vamos continuar a assistir a uma assimetria de cuidados que considero muito preocupante. Vamos continuar a ter uma rede de Serviços de Urgência Básica, Médico-Cirúrgica e Polivalente sem qualquer especialista nesta área. O INEM vai continuar a ter dificuldades em recrutar médicos para uma carreira especializada porque simplesmente não existe. Os diretores de serviço vão ter de continuar a contratar tarefeiros em número crescente sem poderem criar um espírito de equipa e oferecer uma carreira que tanto defendemos para o nosso SNS. Os jovens médicos que se queriam dedicar a esta área só vão ter duas opções: emigrar ou continuar a ser autodidatas. Há dados que mostram que quase 80% dos médicos jovens poderiam estar interessados nesta especialidade. Portanto, estamos a fechar a porta a uma nova geração de médicos que sonham seguir este caminho. Tendo em conta que no fim vencerá o bom senso e a Especialidade em Medicina de Urgência será uma realidade também e Portugal, resta-nos continuar neste caminho de pedras. Não desistiremos. Perdemos uma votação, é um facto. Mas há derrotas para os vencidos, que são vitórias Pírricas para os vencedores.

N.N./Lusa · Atualidade

NEWSLETTER DA SPEDM - SOCIEDADE PORTUGUESA DE ENDOCRINOLOGIA, DIABETES E METABOLISMO/TESTEMUNHO

Sou especialista em Endocrinologia, Obesidade e Diabetes em Londres, no Guy’s and St Thomas’ NHS Foundation Trust.

Durante o internato, fiz um estágio de três meses em Endocrinologia Geral em Londres, com a Professora Barbara McGowan. O contacto inicial foi facilitado pela Professora Mariana Monteiro, a quem muito agradeço. Terminei a especialidade no Hospital de Braga em 2019. Após concluir a especialidade, voltei para o Guy’s and St Thomas’ como Obesity Clinical Research Fellow. Durante três anos, trabalhei exclusivamente em obesidade em três áreas:

- Investigação. Fui sub-investigadora em vários ensaios clínicos. O serviço de Endocrinologia tem um centro clínico académico integrado, cujo portfolio é exclusivamente composto por estudos em diabetes, endocrinologia e obesidade, além de uma equipa permanente dedicada à investigação;

- Médica num programa online estruturado para a perda e manutenção de peso, que inclui low-calorie diets e farmacoterapia para os doentes elegíveis (Saxenda® e, a partir de 2023, Wegovy®). Faço parte de uma equipa multidisciplinar que inclui nutricionistas, fisioterapeutas, psicólogos e médicos. O programa tem a duração de 24 meses e decorre numa plataforma digital em grupos de quinze participantes. Mais de 1250 participantes fazem parte do programa anualmente;

- Médica em contexto hospitalar na avaliação de doentes pré e pós-cirurgia bariátrica.

No Reino Unido, a formação de um endocrinologista demora sete anos (três anos de tronco comum médico e quatro anos de formação específica em Endocrinologia, Diabetes e Medicina Interna). São especialistas em Endocrinologia, Diabetes e Medicina Interna. Após a especialidade, podem trabalhar como Clinical Fellow numa determinada área temática antes de se tornarem Consultant (especialista). Enquanto especialistas, geralmente trabalham nas enfermarias de Medicina Interna três meses por ano.

Comparativamente a Portugal, as grandes diferenças são as áreas de especialização vincada, o trabalho e reuniões multidisciplinares, e o constante feedback formal e informal. Há mais flexibilidade – mesmo durante a formação – para fazer investigação, participar noutras atividades ou ter um horário reduzido por motivos pessoais. Também desde cedo motivam a formação em liderança e gestão de equipas.

Para trabalhar no Reino Unido, mesmo num estágio observacional, é necessária a inscrição no General Medical Council, o que inclui um exame de inglês. Após o Brexit, a transição de Portugal para o Reino Unido tornou-se mais difícil por não haver um reconhecimento automático da formação em Endocrinologia.

Logo após o fim da especialidade, decidi emigrar pela experiência de trabalhar no NHS e viver em Londres, ter a oportunidade de me subespecializar em obesidade, e pela flexibilidade. O reverso é a instabilidade dos contratos temporários e as oportunidades mais limitadas pela minha falta de formação em Medicina Interna.

Planeio continuar no Reino Unido, agora como Consultant, porque sou profissionalmente muito realizada e Londres é agora casa.

Cláudia da Matta Coelho

(Guy's and St Thomas' NHS Foundation Trust)

NEWSLETTER DA SPEDM - SOCIEDADE PORTUGUESA DE ENDOCRINOLOGIA, DIABETES E METABOLISMO/TESTEMUNHO

Terminei o meu internato de Endocrinologia em 2016, e rumei depois a Londres para me diferenciar em patologia hipotálamo-hipofisária. Entre 2016 e 2019 fiz o meu doutoramento no laboratório da Professora Márta Korbonits na Queen Mary University of London (QMUL), financiado por duas bolsas que me foram atribuídas por instituições britânicas após processos de seleção competitivos. Durante esses 3 anos em Londres, participei também na consulta externa e nas diferentes reuniões clínicas e multidisciplinares no St Bartholomew’s Hospital como Clinical Fellow. Em 2019 mudei-me para Leiden onde realizei um estágio clínico e de investigação financiado por uma bolsa da UEMS no Centro de Tumores Endócrinos na Leiden University Medical Center (LUMC) sob orientação do Professor Alberto Pereira. Posteriormente, estive em Malta sensivelmente 1 ano a trabalhar num projeto médico para uma agência da União Europeia. Regressei a Portugal no ano passado.

Sem dúvida que o marco principal nesta “epopeia” foi a realização do doutoramento na QMUL, feito que considero determinante na minha carreira pois desenvolvi uma série de novas capacidades e competências, e conheci muitas pessoas, locais (viajei imenso!) e diferentes realidades e métodos de trabalho. Foi verdadeiramente inspirador trabalhar com a Professora Márta Korbonits, uma das grandes referências mundiais em patologia hipofisária, e tê-la como mentora ao longo desta viagem. Beneficiei muito da sua sabedoria, e por seu intermédio, vi-me envolvido num vasto leque de projetos aliciantes, dos quais destaco o International FIPA Consortium (estudo que inclui mais de 3000 doentes com tumores hipofisários provenientes de mais de 60 países), e a contribuição a convite para várias revistas (como o The Journal Clinical of Endocrinology & Metabolism) e outras fontes bibliográficas de relevo em Neuroendocrinologia (por exemplo a 5ª Edição do Livro The Pituitary, ou o Endotext). Destaco ainda a sensação de realização pessoal com o término do doutoramento, cujo início foi marcado por uma autêntica “saída da zona de conforto”, não só relacionada com a mudança de país e língua, mas também com a mudança de ambiente de trabalho (literalmente do hospital para a bancada do laboratório). Paralelamente, mantive atividade clínica no St Bartholomew’s Hospital e na LUMC essencialmente dedicada a doentes com tumores hipofisários, tumores neuroendócrinos e tumores da suprarrenal/paragangliomas, o que me permitiu ganhar experiência clínica e conhecimentos em patologia endócrina mais complexa.

Esta experiência além-fronteiras, em diferentes países e muito diversificada, foi extremamente enriquecedora do ponto de vista profissional e pessoal, tendo alargado imenso os meus horizontes e a minha rede de contactos a nível europeu. Por outro lado, este percurso dotou-me de um conjunto de competências que considero muito relevantes para a minha atividade clínica, académica e científica como médico endocrinologista e investigador em Portugal. Esta experiência ajudou-me também na redefinição dos meus objetivos profissionais, bem como na minha capacitação para os atingir, que passam agora por desenvolver a minha atividade clínica dedicada especialmente a doentes com patologia hipofisária, bem como manter a minha atividade académico-científica na área da Neuroendocrinologia, e ainda contribuir na educação e formação médica pré- e pós-graduadas.

Atualmente, trabalho como médico endocrinologista no Serviço de Endocrinologia do Hospital de Santa Maria, e faço investigação clínica e básica na área de Neuroendocrinologia potenciadas pela recente angariação de 2 bolsas de investigação (uma nacional e outra americana). Leciono também na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, colaboro como revisor em várias revistas científicas, sou consultor para a Agência Europeia do Medicamento (EMA), e recentemente fui admitido como membro da direção do ENEA Young Researchers Committee (EYRC). Em termos de perspetivas futuras no SNS, pretendo continuar a dar o meu contributo sobretudo para a melhorar os cuidados médicos prestados aos doentes com patologia endócrina, mas também na formação de internos da especialidade não só em termos clínicos assistenciais, mas também na vertente científica e académica.

Pedro Marques 

(Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Norte (CHULN); Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL); Centre for Endocrine Tumors, Leiden University Medical Centre (LUMC))

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No dia a seguir a ter feito o exame final do internato médico de endocrinologia, apresentei a minha carta de despedida do SNS, escrita à mão, datada de 29 de outubro de 2015, que ainda guardo e guardarei, uma espécie de sentimento agridoce. “Agri”, porque sempre me imaginei a trabalhar e envelhecer na minha “segunda casa” e teria ficado, se as condições fossem diferentes (ainda hoje tenho saudades do frenesim, da amizade e do companheirismo, das reuniões de serviço, da resistência e da resiliência, algo que estranhamente se entranha e que nos faz querer voltar). E “doce” porque tinha projetos, ideias e planos de uma medicina “melhor” do ponto de vista de qualidade de vida. E quando falo em qualidade de vida desengane-se o que acha que se tratava apenas de cifrões (porque, trabalhando na privada sem contrato e com a mesma dita qualidade de vida, que é o meu caso, com a carga fiscal, os descontos salariais, o seguro de acidentes de trabalho e outros custos inerentes, sobra sim uma verba mais alta e merecida mas com o custo da ausência da segurança contratual de um funcionário público e com o esforço acrescido de “estar sozinho”, a trabalhar sozinho, sem um Serviço e, como tal, com a necessidade constante de busca de atualizações e novidades científicas porque, estando cada um por si, a atualização científica dependerá obviamente de cada um – e na medicina, não nos atualizarmos é pura e simplesmente ficarmos para trás). Tratava-se disso mesmo, qualidade de vida, tempo para nós, tempo para a família e amigos, tempo para estudar, tempo para trabalhar, tempo para viver, tempo para ir mais devagar e com mais calma no dia-a-dia, sem a sensação de corda sempre esticada e sem o excesso de trabalho que acaba sempre por sobrar para os que mais se preocupam. Além disso, mais tempo para os doentes, na consulta e à distância, mais tempo para ouvir e ser ouvido, mais tempo para fazer uma medicina como acredito que deva ser (porque quantidade não é qualidade e porque tratamos pessoas e não exames, nem ecrãs de computadores, e as pessoas trazem com elas na bagagem dúvidas, receios e anseios).

Comecei sem contrato, em hospitais privados, com uma consulta que me dava gozo fazer, com tempo de qualidade para mim e para quem me procurava (estipulei o meu horário e os meus tempos de consulta). Ouvi muito os meus doentes, fui fazendo material para a minha consulta, elaborando textos informativos para as dúvidas mais frequentes (sim, tinha tempo para isso e ainda para responder a emails com dúvidas). Depois veio o facebook/instagram para contactar melhor com as pessoas à distância e depois o site. Fui crescendo sem ter traçado uma rota específica para isso, foi algo que foi fluindo, naturalmente.

Quando parámos devido à pandemia covid-19, aproveitei a pausa para criar mais textos e conteúdos digitais e percebi que tinha material para um livro com respostas às questões que me foram colocando ao longo de todos estes anos. E assim surgiu “do XL ao S”. Enviei o rascunho do livro para a Bertrand e no mesmo dia tive a resposta positiva do meu Editor Rui Couceiro que estava deveras entusiasmado, o que me deu ainda mais alento e propósito.

Hoje, tenho ainda mais projetos, planos e ideias. Tenho tantos que não cabem neste pequeno texto, desde centros de consulta multidisciplinar, aplicações para telemóveis, podcasts, tudo no sentido de melhor informar, melhor tratar e melhor cuidar – enfim, uma medicina com melhor qualidade de vida, para mim e para o doente. Bem feitas as contas, ao fim destes 5 anos, posso dizer que o balanço foi positivamente agridoce. “Doce” pelos frutos e pela realização, pelo reconhecimento dos meus doentes e dos pares, pela sensação de dever cumprido e pelos novos projetos que vão surgindo. “Agri” pela saudade dos tempos no SNS e pelo declínio a que assisto, impávida e tristemente, a cada dia que passa.

Joana Menezes Nunes

(Hospital da Luz, Clínica Allure e Clínica Uffizi)

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Em 2009, como jovem especialista de Endocrinologia, foi-me proposto ir trabalhar para a indústria farmacêutica para dar apoio científico a um novo inibidor da DPP4 que tinha acabado de ser lançado.

Aceitei este desafio pelo desejo de estar envolvido nos últimos avanços científicos na minha área médica de eleição, pela possibilidade de ter acesso fácil a reuniões científicas internacionais e pela oportunidade de trabalhar com peritos, internos e externos, que eram líderes na sua área. Não seria honesto deixar de fora os incentivos financeiros e, sobretudo, a possibilidade de não fazer turnos na urgência geral, noturnos e em dias descanso, que na altura representavam uma sobrecarga significativa para mim. Naquela altura, o que fechou a minha decisão foi a possibilidade que a companhia me deu (e que continua a dar a muitos colegas), de manter para além de atividade privada, a minha atividade clínica hospitalar em, pelo menos, um período por semana. 

Aquilo que começou como uma experiência de 6 meses, rapidamente se tornou algo pelo qual eu me apaixonei! Tive a oportunidade de trabalhar em proximidade com um colega da estrutura internacional que foi um dos co-investigadores que identificaram a função da enzima DPP4 (di-peptidil peptidase 4) na homeostasia glicémica. Foram anos de trabalho produtivo em que aprendi muito. Este foi o melhor exemplo, mas não o único, do que foi viver e respirar a mais recente ciência na minha área. Por outro lado, como endocrinologistas, o nosso trabalho tende a ser mais solitário, individual do que alguns dos nossos colegas. Na minha companhia, todos os dias trabalhava com colegas de outras áreas, farmacêuticos, especialistas em marketing e vendas, especialistas em assuntos regulamentares, relações públicas, advogados, etc. O trabalho era intenso, mas sempre em grupo e sempre a “remar para o mesmo lado”. Havia verdadeiramente um espírito de equipa e um espírito de missão.  

Trabalhar na indústria como médico não é diferente do trabalho assistencial no seu aspeto mais central de ajudar pessoas a viverem vidas mais longas, mais saudáveis e com maior qualidade de vida. Ao longo dos anos estive envolvido no desenvolvimento e execução de estudos, divulgação e educação de profissionais de saúde não só acerca de fármacos, mas também de aspetos importantes da área médica como o diagnóstico, avaliação e estratificação de risco. Educação e “empowerment” (capacitação) de pessoas portadoras de doença e dos seus familiares foi algo que me orgulhei de fazer. 

Em 2016, tive a oportunidade de trabalhar numa área geográfica distinta de Portugal, que incluía a maior parte da Ásia e Oceânia. Mudei-me para Singapura e durante os anos seguintes tive a experiência extraordinária de vivenciar culturas muito diferentes da nossa. Posteriormente, acabei por voltar para a Europa e abraçar um novo desafio numa nova área: primeiro nas doenças respiratórias e, mais recentemente, na COVID-19. Atualmente, sou responsável por medicamentos que foram desenvolvidos pela minha companhia para a COVID-19 para parte da Europa, África e Médio-Oriente.  

Não seria justo terminar sem confessar que sinto e sempre senti falta da interação com os doentes e outros colegas num contexto puramente clínico. Mesmo naqueles “infernais” turnos no serviço de urgência havia o sentimento de ajudar pessoas de uma forma muito direta e imediata.  

A vida é cheia de surpresas como Carlos da Maia disse no final d’Os Maias: “falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou na imaginação. “Vou ser assim porque a beleza está em ser-se assim”. E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado (…). Ás vezes melhor mas sempre diferente” 

A minha vida é de facto muito diferente daquela que eu imaginei quando acabei a faculdade, mas diferente não é de todo pior: simplesmente diferente!

João Conceição

(MSD Europa)

NEWSLETTER DA SPEDM - SOCIEDADE PORTUGUESA DE ENDOCRINOLOGIA, DIABETES E METABOLISMO/TESTEMUNHO

Terminei o meu internato em dezembro 2021, com aprovação em exame final em março 2022. No momento de escrita desta rubrica, ainda me encontro a trabalhar no Hospital onde realizei o internato, aguardando o novo concurso para médicos especialistas. Este hiato de tempo fez-me pensar nas minhas perspetivas futuras. Antigamente, era certo que a grande maioria dos internos que terminavam a especialidade ficavam no seu Hospital de origem. Hoje, a escolha do local onde vou iniciar a minha carreira como especialista já não é tão linear. As gerações anteriores tiveram circunstâncias bem diferentes da minha. Em 2009 acabaram os contratos de médicos em exclusividade, que permitiam um salário suficiente com total disponibilidade do profissional. Agora, a sobrecarga horária e burocrática, associada a baixos salários faz-me ponderar novas oportunidades de carreira. Estou longe de ser a única, pois as condições no público têm vindo a deteriorar-se e os novos especialistas desertam. A culpa não é dos Serviços, que tentam ao máximo recrutar novos internos com a perspetiva de se estabelecerem ali no futuro. No entanto, após o exame de especialidade, vários colegas escolhem caminhos alternativos. Muitos aceitam convites de hospitais privados, porém, contratos a tempo inteiro começam a escassear. Alguns entram na indústria farmacêutica. Contudo, a maioria requer alguma experiência de investigação ou em medical affairs. Outros, os que sonham mais alto, emigram. Após o meu exame, decidi participar numa feira de emprego com várias agências de recrutamento. O Dubai oferece salários incomparáveis, ideal para pessoas solteiras com espírito aventureiro. O Reino Unido e a Escandinávia também parecem opções atrativas. No entanto, devo relembrar que na maioria dos países europeus um Endocrinologista é primariamente um internista, tendo a seu cargo enfermarias de Medicina, o que pode não cativar a todos. O meu futuro ainda é incerto. Por agora, fico por cá, mas tenho a certeza de que quero sonhar mais alto.

Vitória Duarte

(Hospital Beatriz Ângelo)

Opinião: Notícias

IMPACTO DA DIABETES NA FAMÍLIA

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Lidar com a diabetes pode não ser fácil, mas será bem melhor se o processo for acompanhado pelos familiares.

Texto: José Luís Medina (endocrinologista)

Edição: Violante Assude

In revista Diabetes Viver em Equilíbrio, Ed. 90

A diabetes é uma doença familiar. Porquê? Porque quando se diagnostica a diabetes numa pessoa, toda a família fica envolvida com a pessoa com diabetes, principalmente os que são mais próximos. Na fase inicial da doença pode haver maior fragilidade física e psíquica que pode ser devida a um período, mais ou menos longo, no qual a pessoa ficou sujeito à evolução da doença e às suas consequências como a perda de peso, a desidratação e o estado cetonémico com perda de apetite e emagrecimento. Este estado pode acontecer sobretudo na diabetes tipo 1, com maior relevância.

Ajudar a controlar o stress e a ansiedade

O diagnóstico pode ser acompanhado por preocupações e stress como é frequente. O Institute for Patient- and Family- Centered Care fez um estudo que envolveu 5000 pessoas adultas com diabetes e concluiu que o envolvimento da família, dos amigos e dos colegas de trabalho são muito importantes no bem-estar da pessoa com diabetes e na autogestão da doença (Baig, 2015). Sabemos que o diagnóstico da diabetes pode ser motivo de stress e de ansiedade, na criança e no adolescente a diabetes pode surgir quase de forma súbita, mas no adulto evolui de forma lenta e traiçoeira, até se fazer o diagnóstico. O tratamento da diabetes deve ter a preocupação de diminuir, atenuar essa angústia. Educar, transmitir conhecimento à pessoa com diabetes sobre a doença pode dar segurança e permitir a tranquilidade que é necessária a um tratamento adequado. A equipa de saúde deve tranquilizar a pessoa com diabetes, focando aspetos gerais e particulares do tratamento (estilo de vida e medicamentos) e complicações e formas de as evitar. É aconselhável estender a educação aos familiares.

Aprender a controlar a diabetes

A diabetes é uma doença muito “exigente”. O seu tratamento exige alimentação saudável, atividade física regular, autovigilância, planeamento e organização de hábitos de vida saudável. A pessoa com diabetes deve integrar a equipa que o trata procurando ter uma autonomia responsável - atenção às variações glicémicas e às hipoglicémias (identificação e tratamento pronto e eficaz) e prevenção das complicações através de controlo apertado e adequado à idade e às co-morbilidades associadas sem esquecer que a pessoa deve ter a melhor qualidade de vida possível. Não se deve esquecer que a má qualidade de vida afeta a Diabetes (American Diabetes Association).

O impacto emocional pode ser significativo não só na pessoa com diabetes, mas também nos familiares, sobretudo os mais próximos.

Diversos fatores podem contribuir para que possam surgir sentimentos de ansiedade: o diagnóstico, o facto de ser uma doença crónica (a prazo longo), o aparecimento de potenciais complicações e as temidas hipoglicemias. É fundamentar educar para esclarecer e ter disponibilidade de atenção em determinadas fases da doença. O pessoal da equipa multidisciplinar tem que estar sempre disponível para aumentar a segurança da pessoa diabética.

Estender a educação aos familiares

O apoio e o acompanhamento dado pela família podem ser concretizados de forma mais imperiosa nas crianças, nos adolescentes e nos mais idosos, contribuindo para o bem-estar físico e psicológico, fomentando o otimismo e a esperança no futuro da pessoa com diabetes. Este apoio familiar pode refletir-se por exemplo no acompanhamento às consultas e aos tratamentos, ou na preparação e administração do tratamento (insulina, medicamentos) para evitar omissões, trocas e confusões.

Lidar com a doença não será fácil, mas será bem melhor se o processo for acompanhado pelos familiares. Baig (2015) sublimava várias formas de apoio familiar: apoio social e emocional, acompanhamento em consultas, ajudas a decisões sobre o tratamento, apoios para iniciar e manter hábitos de vida saudáveis (não fumar, não abusar de bebidas alcoólicas, alimentação saudável, atividade física de acordo com a idade, por exemplo), ajuda para ultrapassar as rotinas familiares, ajudar nas dificuldades financeiras, nas injeções de insulina encorajando e evitando esquecimentos e acompanhar nas idas às urgências. A família tem ainda outras responsabilidades para não “sabotar” os seus deveres: planear refeições inadequadas para um diabético, não tentar com alimentos não aconselháveis, não questionar a necessidade e utilidade das medicações e perturbar a adesão ao tratamento.

Apoiar e envolver-se reduz conflitos relacionados com a doença.

É muito importante dar informação aos membros da família sobre a doença e as opções do tratamento, validar as suas experiências como cuidadores, ensinar a lidar as tarefas que fazem parte da gestão da doença e ensinar a planear o futuro. Os familiares, com esta integração nas atividades relacionadas com o tratamento, também podem colher benefícios como diminuição do stress psicológico, melhorar os seus comportamentos, aumentar a literacia para a saúde, prevenir a doença e combater a obesidade.

Num estudo, realizado por Anderson e col., em adolescentes dos 10 aos 15 anos foi demonstrado que o envolvimento dos pais pode ser reforçado através de uma intervenção integrada na rotina da equipa e contribui para uma redução dos conflitos familiares relacionados com a diabetes, através da observação e aconselhamento sem ser uma proteção declarada.

Apoio familiar facilita o controlo metabólico

O controlo metabólico é influenciado por vários fatores como sejam os fatores socioculturais (interação familiar e a pressão exercida pelos familiares), os fatores psicológicos (depressão, comportamentos prejudiciais, stress, perturbações nutricionais, medo de complicações e discriminação social) e também outros fatores como os mitos e os medos da insulina, as dosagens da insulina, outros injetáveis não – insulina, os antidiabéticos orais a evolução física e hormonal do jovem e seu metabolismo. A importância dos familiares como cuidadores vai contribuir para a associação que se verifica com o melhor controlo metabólico e a prevenção das complicações. A intervenção familiar pode ser feita, na criança e no adolescente, através do apoio e reforço da segurança. É importante a vigilância sobre desvios do comportamento que prejudiquem o controlo da diabetes e a prevenção das complicações. No adulto, a intervenção da família pode incidir no apoio e no reforço da segurança, no aconselhamento em casos particulares e na partilha de conhecimento sobre a doença. As relações familiares podem influenciar a gestão da diabetes (conflitos de opinião sobre medidas a tomar no campo nutricional, por exemplo).

A não resolução dos problemas pode ser um indicador de risco para as complicações. É aconselhável que os membros da equipa estejam atentos a estes problemas para atuar a este nível. Foram identificados alguns fatores de risco familiar em estudo realizado por Fischer (2006) – baixa satisfação do casal, hostilidade e conflitos, excesso de críticas, má capacidade para resolver problemas, baixas coerência e coesão familiar, má organização familiar, dúvidas sobre a diabetes e sobre a eficácia das recomendações da equipa.

O conhecimento dos familiares sobre a diabetes é muito importante com influência na adesão ao tratamento, no cumprimento das recomendações alimentares, na desmistificação da insulinoterapia, na identificação das complicações e no apoio à vigilância sobretudo em crianças, adolescentes e idosos.

Opinião: Notícias
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O DRAMA DA PLETORA MÉDICA?

"A avalanche de novos médicos acarreta por preceitos deontológicos a diminuição das receitas da classe". Mais adiante corrige: "a abundância de médicos não significa riqueza da profissão: basta reparar nos médicos, vítimas de certas explorações comerciais e industriais que por aí começam a organizar-se e que são indicio certo de miséria profissional " - carta ao diretor da Revista Medicina*, em 1935, de um dirigente da Associação Médica Lusitana**, a propósito da publicação de um artigo***.

Na mesma missiva afirmava-se que os médicos a exercer na cidade do Porto eram cerca de duzentos, considerados suficientes para a procura existente. Curioso acrescentar que mais adiante também se dizia que em tempos de crise o recurso às urgências hospitalares aumentava, o que continua a ser verdade.

Atualmente, a Ordem dos Médicos continua a afirmar que há uma pletora de médicos e que continuam a entrar médicos acima das capacidades formativas. Contudo, as opiniões dividem-se, uns dizem que temos médicos a entrar acima da nossa capacidade e outros dizem que apesar das faculdades estarem a formar muitos médicos, o Serviço Nacional de Saúde tem falta de médicos -2,7 médicos por mil habitantes, abaixo da média da OCDE 3,3.

Mas os estudos de demografia médica realizados até à data, quer pela Prof. Paula Santana, quer pelo Prof. Correia da Cunha, e o último inquérito realizado na região norte pela Profª Marianela Ferreira, chegam todos à conclusão que há médicos a menos no Serviço Nacional de Saúde.

O estudo demográfico, realizado em 2015, na região sul, pelo Prof. Correia da Cunha, intitulado "O que fazer com tantos médicos?" teve como finalidade refletir sobre a evolução demográfica dos profissionais de medicina em Portugal, nas últimas duas décadas.

"Neste estudo, apresenta-se a grande contradição sobre a classe médica em Portugal: existem demasiados licenciados em Medicina, com os números a crescer, mas o Serviço Nacional de Saúde tem cada vez menos médicos. Entre outros aspetos, as conclusões desta reflexão vão apontar para a necessidade de rever o numerus clausus e ao mesmo tempo reativar as carreiras profissionais, não só para contrariar a tendência de envelhecimento dos médicos, mas também para, por exemplo, incentivar a imersão em áreas especializadas com poucos médicos e apoiar a fixação dos mesmos, colmatando assimetrias regionais e evitando que se agravem as condições de igualdade de acesso dos portugueses aos cuidados de saúde", in introdução.

A caracterização demográfica apontou para uma carência evidente de médicos no setor intermediário, feminização da profissão e desigualdade na renovação das especialidades. Sendo as mais problemáticas a Medicina Geral e Familiar, Saúde Pública e Estomatologia.

Neste estudo, várias soluções foram apontadas: a reativação das carreiras profissionais, sem as quais não temos profissionais dedicados que inclusive possam apoiar a formação em regiões mais carenciadas, assim como a fixação de médicos.

Conferindo um inquérito que está a ser realizado pela revista da Ordem dos Médicos (OM) aos presidentes das 21 sub-regiões são constantes as queixas de falta de médicos no setor público, inclusive na região de Lisboa-Cidade. Cito: "com consequente sobrecarga para os profissionais, diminuição da qualidade do serviço prestado e da capacidade formativa"****(OM. Nº 183, Outubro de 2017).

Durante os anos setenta e oitenta, mesmo em anos em que se formaram cerca de 2000 médicos, houve um esforço em criar uma pletora de especialistas correspondendo ao desejo da maioria dos médicos. Esta política, planeada ou não, foi responsável pelos grandes avanços da medicina portuguesa e colocou o nosso Serviço Nacional de Saúde entre os melhores do Mundo. Outros países não seguiram este caminho, como por exemplo a vizinha Espanha que optou pela formação de clínicos gerais em detrimento de uma pletora de especialistas. Cabe agora ao governo e aos profissionais de saúde decidirem qual o caminho a seguir: retomar o papel dos hospitais como formação de excelência de médicos especialistas e/ou investir mais na saúde pública e nos cuidados primários.

Uma coisa é certa, todos estão de acordo que faltam médicos no SNS e que devido à sobrecarga destes profissionais o serviço público está a degradar-se com fuga de médicos para o sector privado e para o estrangeiro.

Temos de deixar de ter medo da "avalanche de médicos", para utilizar a expressão do nosso colega, em 1935, e aumentarmos a possibilidade de acesso aos cursos de medicina, assim como a formação específica de todos os médicos.

Já temos a experiência dos anos 80, em que um aumento excessivo do numerus clausus foi prejudicial. Ainda estamos a pagar esse erro com uma carência de médicos no sector etário intermédio, fundamental para a formação dos mais jovens.

Ao longo de todos estes anos, houve uma enorme falha no planeamento dos efetivos médicos por parte dos sucessivos governos.

Não foi tomado em conta a transformação da medicina, o aumento das necessidades de cuidados médicos, o envelhecimento da nossa população empobrecida por longos períodos de crise.

Não foi tomado em conta a evolução da sociedade, as mentalidades, o aumento merecido do tempo de descanso, a feminização salutar da profissão, as atividades profissionais não relacionadas diretamente com cuidados médicos, diplomas não utilizados, horários em tempo parcial, falta de atrativos para fixar clínicos nas zonas rurais e periféricas das grandes cidades.

Em suma, impediram centenas de jovens - sobretudo os oriundos de famílias mais carenciadas - de serem médicos, privando as populações dos seus serviços.

Digo das famílias mais desfavorecidas, referindo-me às que não têm posses para que os filhos se licenciem em Espanha, República Checa ou outros países da Comunidade Europeia, o que lhes permitiria exercer no nosso país.

* Espólio de Abílio Mendes

** Associação Médica Lusitânia era a associação dos médicos do norte do país (1914-1938)

*** Pinho VA .AO LADO DA MEDICINA, O IMPOSTO PROFISSIONAL POR CAPITAÇÃO, Aspectos Sociais e Económicos, Medicina, Ver. de Ciências Médicas e Humanismo, nº15, Outubro 1935, ANO II

****Corte Real S., atualidade, OM. Nº 183, Outubro de 2017

Jaime Teixeira Mendes

Cirurgião Pediatra

Presidente da AMPDS-Associação de Médicos Pelo Direito à Saúde

(Público on-line, 2018)

 

OPINIÃO

DOCUMENTO PUBLICADO PELA PLATAFORMA REFORÇAR O SNS EM REACÇÃO À DEMISSÃO DA MINISTRA DA SAÚDE

Subscrevo, embora me pareça que a escassez de especialistas também será da responsabilidade do Min Saúde (em geral), na medida em que não for capaz de desbloquear as carreiras e torná-las mais atraentes para os jovens (e menos jovens) especialistas.


João Lavinha

Investigador Principal aposentado

Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge

SNS - OPINIÃO/DR. FRANCISCO CRESPO

A propósito do SNS, temos que lembrar que de facto ele está associado a opções políticas. Quando surgiu em Inglaterra, os médicos que o criaram receberam ameaças de morte e defendiam a medicina privada. Também em Portugal o PSD e CDS votaram na AR contra, quando foi lançado. Portanto convém não esquecer que na base da sua criação, há uma matriz social que pela primeira vez surgiu em Inglaterra e em Portugal ao se criar um serviço médico gratuito que iria competir com visão lucrativa da saúde.

É importante analisarmos estes factos objetivos, para partirmos para aquilo que se foi observando no SNS em Portugal e percebermos se se criaram pequenas alterações que a pouco e pouco esvaziaram o SNS.

No início todos os médicos ao terminarem a especialidade, tinham que ficar obrigatoriamente uns anos no SNS, pois como o Estado pagara essa formação, não fazia sentido que não fosse compensado desse encargo.

  1. Pois muito bem, essa lei foi alterada e os médicos logo após obtenção do título, obrigatoriamente eram expulsos do SNS (PRIMEIRA MEDIDA EM PREJUIZO DO SNS)

  2. Logo passado pouco tempo acabam com a Dedicação Exclusiva, que permitia uma maior dedicação e mais tempo de trabalho. OUTRO ROMBO, QUE DIFICULTOU A PERMANÊNCIA NO SNS

  3. A abertura de concursos de promoção na Carreira - passam-se anos que não abrem.

  4. Os vencimentos incrivelmente baixaram, de tal modo que os meus colegas, hoje ganham menos do que eu ganhava, (já estou reformado de Diretor de Serviço do SNS há 10 anos)!!

Ora honestamente digam-me lá, se durante anos os governos não fizeram tudo para prejudicarem o SNS, favorecendo a fuga de pessoal para os privados e se nos casos clínicos mais graves, os doentes não vão para os hospitais do SNS?

 

Mas agora vamos ver se algumas mudanças poderão melhorar o SNS.

1-Após terminarem a especialidade, TODOS os médicos têm que ficar obrigatoriamente mais 2 anos, para compensar os encargos de formação do Estado, podendo continuar se quiserem.

2- Ser recriada a DEDICAÇÃO EXCLUISIVA, facultativa, para impedir fuga para privados, exceto para os Diretores de Serviço e Hospitais, que terão que ser obrigatórias.

3- Os Diretores Clínicos terão que voltar a ter funções executivas e não só consultivas, pois o prejuízo clínico decorrente do domínio dos Administradores, trouxe graves prejuízos clínicos.

4- Era importante que no SNS os blocos operatórios trabalhassem 24 horas consecutivas, como na Alemanha, o que reduziria as listas de espera e aumentaria o treino dos médicos, com pagamentos ajustados aos horários.

 

6- Devia atribuir-se o prémio pelo bom desempenho, com remuneração

(publicação de artigos médicos em revistas médicas indexadas, organização de cursos, congressos…)

7- Abertura urgente de concursos das Carreiras Médicas. reflexão progressiva e urgente do SNS.

 

Espero contribuir com a minha modesta opinião para a melhoria urgente do SNS.

Francisco Crespo

Médico

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